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| Colocada: Fri Jul 2,2010 7:55:01 AM |
A recessão económica e as novas carreiras dos americanos
A recessão que teve início em 2007 já levou mais de 6,7 milhões de norte-americanos a perder os seus empregos. Muitos destes empregos são irrecuperáveis, mesmo com as mais recentes perspectivas de abrandamento da recessão a nível global, na medida em que, consequentemente, também o próprio mercado tem vindo a sofrer alterações profundas.
Os especialistas em matéria de empregos que têm vindo a analisar o mercado norte-americano afirmam que, actualmente, se está a assistir a um movimento de mudança do mercado de trabalho, como resposta ao período de crise que se está a atravessar, que, a prazo, irá permitir a sua renovação e consolidação.
Movidos quer pela paixão, quer pelas novas oportunidades que agora se apresentam, num mercado de trabalho “remodelado” pela crise, milhares de trabalhadores viram-se na necessidade de reinventar as suas carreiras profissionais. Alguns tiveram de fazê-lo por desespero.
Com o desaparecimento dos chamados empregos “blue collar”, que estão principalmente ligados às actividades da indústria, dos transportes e da construção civil, milhões de trabalhadores viram-se forçados a uma reconversão profissional, tendo sido desviados para novas profissões e, em muitos casos, com novas passagens pela escola.
Na opinião de alguns economistas, isto sucede porque os postos de trabalho que agora ficam disponíveis exigem um muito maior grau de literacia, dependendo menos da capacidade física e manual. Hoje em dia, são muito mais valorizados os conhecimentos de informática, o domínio de línguas estrangeiras, ou qualquer tipo de especialização.
Também as profissões “white collar”, como as que estão ligadas aos sectores da banca e dos seguros, ou ao do imobiliário, e que foram bastante afectadas com a recessão, deixaram de se apresentar enquanto carreiras viáveis para muitos trabalhadores, devido à instabilidade que se tem verificado nestas áreas.
O sentimento que perpassa a sociedade norte-americana é o de que é tempo de fazer outra coisa, mesmo quando as motivações são diferentes e dependendo da realidade da qual se provém. Existem aqueles que perderam o emprego e se viram forçados a encontrar uma alternativa de sobrevivência, mas também os que aproveitaram a crise para arriscar uma decisão que, muito provavelmente, não teriam tomado noutras circunstâncias.
Muitas pessoas viram as suas responsabilidades ou a carga horária aumentadas, devido ao despedimento de colegas, e outras sofreram reduções nos salários ou nos benefícios, o que levou a que se começasse a encarar mais seriamente a possibilidade de abandonar os trabalhos por conta de outrem de toda a vida, para iniciar um negócio próprio.
Devido ao sentimento generalizado de frustração e de que é necessário encontrar, ou criar, novas oportunidades, existem estudos recentes sobre o mercado de trabalho que indicam que, actualmente, para 53% dos trabalhadores de um grupo de algumas das maiores empresas americanas, o simples facto de manter o emprego já não é suficiente e que cerca de 20%, refere o site SnagAJob.com, pretendem mudar de profissão durante o próximo ano.
A recessão económica impulsionou muitas mudanças, no entanto, nem sempre é fácil efectuar mudanças tão radicais como algumas que se têm registado, nos últimos tempos, no mercado de trabalho dos Estados Unidos. O professor Gerrald Shapiro, da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, afirmou, numa publicação recente, que “esta recessão foi um rude golpe financeiro para muitas famílias americanas, independentemente do estrato socioeconómico a que pertencem”.
Naturalmente, a perda do emprego, da casa ou da pensão, despoleta sentimentos de vergonha e de raiva em quem se vê confrontado com este tipo de situações, levando a que, por vezes, as pessoas se sintam bloqueadas para agir, devido à sua ideia preconcebida de estatuto ou poder.
Gerrald Shapiro evidenciou ainda o problema de ansiedade e depressão que está, neste momento, a afectar o mercado de trabalho, destacando um outro, menos evidente, “que tem a ver com a discrepância entre aquilo que as pessoas sonharam ou procuraram e aquilo que é possível nesta conjuntura económica”.
O ambiente gerado pela crise tem levado muitos americanos a optar por carreiras que não as inicialmente desejadas, nem aquelas para as quais se prepararam ao longo do seu percurso escolar. Um caso paradigmático é o do ensino.
De acordo com a National Education Association, o maior sindicato de professores dos Estados Unidos, uma grande parte dos cerca de 100 mil professores que ficaram sem trabalho no sistema educativo americano no início do ano lectivo em curso poderá vir a abandonar, em definitivo, a profissão.
Randi Weingarten, presidente da American Federation of Teachers (a Federação Americana dos Professores), lamentou o facto de que muitos dos professores que estão agora a optar por outras carreiras não irão, certamente, regressar à sua antiga profissão, o que significa que, a longo prazo, a própria carreira docente sairá prejudicada, visto que é cada vez menos atractiva.
Alguns professores conseguem manter-se ligados à carreira que inicialmente escolheram, através de cursos complementares que posteriormente lhes permitem, em alguns casos, iniciar um negócio próprio, relacionado com a área do ensino, sem que estejam directamente subordinados à tutela do Estado.
Muitos desempregados urbanos, no entanto, são levados a “caminhar por territórios desconhecidos”, vendo-se obrigados a abandonar, por vezes, o estilo de vida pelo qual haviam optado no início das suas vidas profissionais.
A comparação entre custos e benefícios tem levado muitas famílias a trocar a cidade pelo campo. Nos jornais e na televisão, são frequentes os relatos sobre banqueiros, consultores e advogados que, cansados de uma carreira cujas perspectivas de futuro foram fortemente abaladas pela crise, deixaram o que haviam construído, ao longo dos anos, na cidade e passaram a dedicar-se à produção de vinho, fruta ou queijos.
Segundo as estatísticas oficiais, apenas 1% da população activa, nos Estados Unidos da América, se dedica exclusivamente à agricultura. Contudo, esse número pode vir a aumentar, uma vez que, correspondendo a 13% do PIB, a actividade do sector primário tem um impacto enorme na economia do país.
Para além disso, e ao contrário do que se regista noutros sectores, alguns deles altamente concorrenciais e competitivos, a produção agrícola ainda é fortemente protegida pelo Estado, com a atribuição de subsídios e de outros benefícios. Recentemente o Congresso aprovou uma lei que reforça o programa de apoio à produção de lacticínios em 250 milhões de dólares.
A autora do livro “Strategies for Successful Career Change”, Martha Mangelsdorf, sublinha que “ainda é muito difícil mudar de carreira quando não se quer”, apesar de ser consideravelmente mais fácil do que na década de 50, por exemplo, “quando as pessoas estavam condenadas a ter o mesmo emprego toda a vida”, uma vez que a sociedade americana desenvolveu um sistema muito mais aberto e de grande mobilidade profissional.
A verdade é que nunca como agora as pessoas encararam tão facilmente a possibilidade de descartar toda a sua experiência profissional anterior e iniciar uma nova vida e uma nova carreira.
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