| Autor |
Mensagem |
|
|
| Colocada: Wed Jul 28,2010 10:34:25 AM |
I. O conceito de Mãe África
O conceito de “Mãe África” surgiu da Negritude, uma corrente ideológica dos anos de 1940 e 1950, composta maioritariamente por escritores negros francófonos, que pretendia afirmar e reivindicar a identidade negra, o seu passado e os seus valores próprios.
Sob a perspectiva deste conceito, a mulher africana começou a ser vista como metáfora da mãe pátria e guardiã da tradição. Tentou-se, por esta via, construir uma identidade africana sólida, que permitisse cimentar alicerces sólidos para os novos Estados independentes que surgiram na década de 1960.
A Negritude representa a “Mãe África” como uma mulher que é simultânea e indissociavelmente mãe, sendo o seu principal objectivo enaltecer a identidade de todo o povo africano e contrariar a concepção da africana selvagem que se tinha da mulher africana no Ocidente. A mulher africana ganha os contornos de um ser cálido, sensual e cuidador.
Houve quem se opusesse, à época, a esta imagem da mulher africana enquanto ser idealizado, irreal e sem problemas, visto que, através desta imagem, se estaria a destruir um esforço de mudança real na sua vida. Entre as vozes mais destacadas daqueles que se opuseram à Negritude, contam-se também os “feminismos negros”, que procuraram combater a imagem de superioridade das mulheres “brancas”.
Um dos argumentos mais utilizados contra o conceito de “Mãe África” era o de que, através da idealização da mulher, a realidade em que esta vive pode ser esquecida, camuflando a subordinação a que estão sujeitas nas suas sociedades, as quais são, na maioria dos casos, eminentemente patriarcais.
II. A Mulher Africana
Em algumas civilizações africanas antigas, em especial na África setentrional, a organização da sociedade baseava-se em sistemas do tipo matriarcal, o que conferia às mulheres uma completa autonomia moral e intelectual, constituindo-se como elemento central do corpo social. Havia uma partilha de direitos e responsabilidades, o que permitia às mulheres desempenhar funções sociais, económicas, espirituais e, inclusivamente, exercer uma grande influência sobre o poder político.
Desde sempre, as mulheres africanas têm sido agentes activas no desenvolvimento da civilização humana, um por todo o mundo, mas o período da escravidão, colonização e descolonização de África é a única história que nos é contada, sendo esquecido todo o percurso anteriormente feito por estas mulheres, até aos nossos dias, e inibindo o seu crescimento social.
De entre os principais factores que inibiram o crescimento económico e social do continente africano e que afectaram, particularmente, o desenvolvimento das mulheres africanas destacam-se a escravatura, a exclusão social e a violência familiar e cultural, mas também a falta de acesso à instrução, a interdição ao direito de voto e de propriedade e outros conceitos condenáveis, como a excisão (a mutilação genital feminina), o tráfico de mulheres, a lapidação, etc. De resto, toda a história da mulher negra foi (e continua a ser, em muitos casos) construída com base na escravatura.
Ao longo da história, no imaginário social, foi sendo criada a ideia de que a mulher africana seria inferior numa escala humana e, consequentemente, o preconceito racial e os problemas dele decorrentes surgem como expressão dessa ideia, fundamentada numa invenção ideológica.
Todos estes factores levaram a que, apesar da luta pela emancipação feminina e dos espaços já conquistados, o acesso a oportunidades seja, ainda hoje, dificultado à mulher africana (ou de origem africana), o que muitas vezes tende a ser interpretado ou associado a uma falta de capacidade e competência.
Maternidade e Fertilidade
A figura da maternidade ocupa um lugar destacado em todas as culturas. Em África, é considerada a maior manifestação da condição feminina. Em muitas sociedades deste continente é considerado que a identidade enquanto mulher é estabelecida pelo advento da maternidade como acto criador de uma nova vida e de continuidade da espécie.
Em algumas destas sociedades, em particular, naquelas do tipo matriarcal, as mães são veneradas – não só como dadoras de vida e responsáveis pela ligação com os antepassados, mas também como portadoras da cultura e núcleo em torno do qual é sustentada a organização social. É, por isso, comum que as relações formadas tendo por base os nascimentos sejam as mais importantes, mais até do que os vínculos matrimoniais.
Nesse sentido, a maternidade confere um estatuto quase divino à mulher africana, o que resulta numa tendência para uma certa institucionalização da maternidade, através de ritos, crenças e tabus, que ao longo do tempo foram adquirindo uma significação religiosa.
No entanto, a infertilidade foi sempre interpretada como um problema exclusivo das mulheres, mesmo quando a infertilidade constatada estava do lado do homem, uma vez que, para o homem, não ter filhos é um factor de desaprovação por parte da família e até de exclusão social.
Matrimónio e Filhos
A mulher africana é obrigada a casar ainda muito jovem, pelo pai, que lhe arranja um marido púbere, adulto ou velho, sem que ela participe nessa escolha. A par da sua vida esgotante, desde cedo, a mulher sofre no espírito e na carne os maus-tratos do marido e as condicionantes que o seu estatuto na sociedade lhe impõe.
Muitas vezes, a mulher é quase como uma escrava de quem o marido tudo espera. Embora seja a mulher quem mais trabalha no lar, quem cuida dos filhos e os educa, a sociedade tende a não lhe assegurar um lugar de destaque. Pelo contrário, tem quase sempre um estatuto social negativo e um papel não reconhecido que a empurram para uma posição de subordinação perante os restantes membros que compõem o seu meio, transformando-a num espectro daquilo que é, na realidade, ao nível da estrutura social.
Outro facto é que, em grande parte destas sociedades, os filhos que uma mulher tem pertencem, através dos laços matrimoniais, à família do marido. A noiva é “comprada” pela família do marido, de modo a garantir o direito sexual exclusivo do homem sobre a mulher, bem como o controlo sobre os filhos que possam nascer desse matrimónio.
Em África, o matrimónio vai além da relação entre as duas pessoas que o constituem: é uma instituição através da qual são consolidados vínculos entre os diversos grupos que a compõem. No entanto, o que realmente importa são os filhos que nascem desta relação e, no que às expectativas da sua sociedade, em geral, diz respeito, é essa a função a que a mulher africana deve aspirar.
A mulher terá de se adaptar à sua nova vida enquanto esposa e, em sociedades poligâmicas, conseguirá, com o tempo, tornar-se a primeira esposa e exercer autoridade sobre as restantes. Em sociedades monogâmicas, a valorização social pode ser obtida na sua ancianidade ou na relevância do seu papel enquanto mãe.
As mães africanas dedicam-se a assegurar a sobrevivência dos seus, mesmo em condições extremas, e são essenciais na tarefa indispensável de humanizar os seus filhos e o mundo que os rodeia. As suas funções fundamentais são ter filhos, cuidar deles, acompanhá-los, provê-los de tudo o que precisem e educá-los.
Tornam-se, assim, como já foi abordado, os mais importantes veículos de cultura e de identidade – têm de garantir que, aos seus filhos, vai ser transmitida e que neles vai ser incumbida uma humanidade própria, construída à margem de qualquer preconceito. Contudo, o facto de, desde o início da idade em que pode procriar e até ao seu final, ter filhos quase incessantemente e sem obedecer a intervalos razoáveis entre nascimentos, provoca um desgaste psico-fisiológico permanente.
Para além de tudo isto, trabalha em casa, confeccionando a comida para o marido, os filhos e as demais pessoas que a frequentam. Cultiva os campos, semeia, sacha, colhe e carrega à cabeça os produtos agrícolas. Anda pelo mato à procura de lenha, junta-a em molhos de, pelo menos, 50 quilos e leva-os para casa. Quando não tem água canalizada em casa, vai buscá-la ao fontanário, numa lata que traz à cabeça ou num barril que vai empurrando até chegar a casa. Feita a comida, põe a mesa para toda a gente comer. Tira a loiça da mesa e lava-a sozinha. Desde o nascer até ao pôr-do-sol, está constantemente de pé e a trabalhar.
Todo este trabalho é executado, muitas vezes, com um bebé amarrado às costas. Descansando somente à noite, depois de servir tudo ao marido, e quando a mulher consegue arranjar trabalho fora de casa desempenha, geralmente, as funções de empregada de limpeza, porque as suas habilitações literárias não lhe permitem aceder a outro tipo de oportunidades.
O que se verifica, apesar de tudo é que, mesmo apesar de todas as dificuldades que a vida quotidiana impõe às mulheres africanas, a maternidade é uma instituição poderosa e sublimada, em África.
As Crianças
As crianças são vistas como um dos maiores valores da sociedade, na medida em que constituem um importante capital humano e garantem, ainda, a segurança social dos pais na velhice, tendo também a responsabilidade de assegurar a continuidade do clã familiar.
Os membros de uma comunidade são sempre responsáveis pelo desenvolvimento da criança, sendo o comportamento individual julgado pelo bem que determinado indivíduo proporciona à sua sociedade.
As crianças são vistas, em África, como filhas não só da sua própria mãe, mas também da comunidade onde nascem e onde se enraízam desde o seu nascimento.
Relações Materno-Filiais
A educação e a formação começam na família e a mulher é a principal dinamizadora de qualquer mudança de mentalidade na sociedade, dado que tem o privilégio de acompanhar mais de perto o crescimento dos filhos, transmitindo-lhes a sua visão do mundo e o seu modo de estar com os outros.
Entre diferentes gerações, as relações familiares nas sociedades pós-coloniais podem demonstrar alguma tensão e conflitos, estando algumas das manifestações destes conflitos associadas, precisamente, às relações entre a mãe e os filhos e à desmistificação das crenças relativas ao amor maternal, também estas muito focadas no âmbito da Negritude.
Os vínculos materno-filiais podem ser, por vezes, estreitos e, noutras, violentos, quando estas relações se constroem numa base de presenças femininas protectoras ou quando, pelo contrário, as ausências são tão dolorosas para os descendentes que as consequências que daí advêm se tornam irreversíveis.
Em África, a identidade feminina é estabelecida quase exclusivamente pela maternidade e, como tal, muito se tem discutido sobre os deveres e gratificações maternos, assim como a componente de obrigatoriedade socialmente imposta por esta condição.
Uma das grandes questões que se têm levantado, e que advém dessa discussão sobre a maternidade enquanto factor identitário quase exclusivo na condição das mulheres africanas, procura propor fórmulas alternativas, igualmente válidas, tanto para as mulheres como para toda a comunidade, relativamente ao papel que cada um deve desempenhar na sua sociedade.
Há quem não tente idealizar o universo feminino e, em consequência, não tenha dúvidas relativamente às desvantagens que, quase sempre, advêm do simples facto de se ser, ao mesmo tempo, mulher e africana. Para além disso, são ainda bem perceptíveis as dificuldades que a mulher africana tem para escapar à perpetuação de sistemas patriarcais e neocoloniais e à exploração por parte daqueles que estão a seu cargo e daqueles que a sustentam.
III. Últimas considerações
A importância da mulher dentro da sua sociedade começou a ser melhor compreendida quando se observou o seu papel de actor social interveniente na economia, na política e na religiosidade da sua própria cultura.
A mulher é, também, por outro lado, detentora de uma relativa independência económica um pouco por toda a África, podendo ascender a um determinado estatuto social e político, mas constantemente subordinada aos seus parentes masculinos e a determinados ritos de passagem para que seja completamente aceite na sociedade.
Aquilo que, actualmente, tem vindo a ser debatido nos estudos sobre a mulher africana, procura mostrar que é possível viver uma existência plena sem que o acto da maternidade seja uma condição essencial, através de alternativas à maternidade biológica e que possam dignificar a mulher, por outros meios, como parte valiosa e fundamental da comunidade na qual está inserida, mesmo que de forma divergente da habitual.
Em suma, a mãe africana é muitas vezes considerada uma figura poderosa, mas não deixa de estar exposta aos “perigos” que a sociedade lhe impõe, especialmente nos casos em que a maternidade é uma condição quase exclusiva, que acaba por transformar estas mulheres em vítimas.
|
|
|
|
|