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| Colocada: Wed Jul 28,2010 10:33:25 AM |
1- As várias concepções do termo
È difícil encontrar na ciência social um conceito tão complexo, tão vasto em significados como o conceito de ideologia. Ao longo da História o conceito de ideologia revestiu-se de contradições, paradoxos, arbitrariedades, ambiguidades, equívocos e mal-entendidos, o que torna difícil definir concretamente o conceito.
Actualmente, consideramos a ideologia com um conjunto de ideias, de pensamentos, de doutrinas ou de visões do mundo de um indivíduo ou de um grupo, orientado para as acções sociais e, principalmente, políticas.
O conceito de ideologia surgiu no contexto das transformações sociais e políticas que marcaram os séculos XVIII e XIX – Revolução Industrial e Revolução Francesa. A primeira pessoa a referir este termo foi o filósofo, politico e militar francês Destutt de Tracy, assumindo o conceito de ideologia como a ciência das ideias. Destutt publicou em 1801 um livro chamado Eléments d’Idéologie”, tendo sido realmente o primeiro pensador a criar o termo e a atribuir-lhe um significado.
Posteriormente, a palavra ganhou um sentido pejorativo quando Napoleão considerou De Tracy e os seus seguidores de "ideólogos" no sentido de "deformadores da realidade". No entanto, os pensadores da antiguidade clássica e da Idade Média já entendiam a ideologia como um conjunto de ideias e opiniões de uma sociedade e dos seus membros.
Inicialmente a palavra e a teoria pretendia substituir a teologia como a ciência das ideias, tendo em consideração que o mundo se tornava cada vez mais racional e menos teológico. Sob a nova crença, a humanidade era responsável pelos seus actos e pelas consequências advindas deles.
Posteriormente, (século XIX) Karl Marx desenvolveu uma teoria a respeito da ideologia, na qual a concebe como uma consciência falsa, proveniente da divisão entre o trabalho manual e o intelectual. Nessa divisão, surgiriam os ideólogos ou intelectuais que passariam a operar em favor da dominação ocorrida entre as classes sociais, por meio de ideias capazes de deformar a compreensão sobre o modo como se processam as relações de produção. Neste sentido, a ideologia (enquanto falsa consciência) geraria a inversão ou a camuflagem da realidade, privilegiando os ideais ou interesses da classe dominante.
O uso crítico do termo ideologia pressupõe uma diferenciação implícita entre um conjunto de ideias sobre um determinado assunto e o uso de uma determinada ideologia enquanto ferramenta simbólica voltada para a criação ou manutenção de relações de dominação.
Na sua obra A Ideologia Alemã, o conceito de ideologia aparece como equivalente à ilusão, à falsa consciência, à concepção idealista na qual a realidade é invertida e as ideias aparecem como agente da vida real. Mais tarde Marx amplia o conceito e fala das formas ideológicas através das quais os indivíduos tomam consciência da vida real, ou melhor, a sociedade toma consciência da vida real. Ele enumera-as como sendo a religião, a filosofia, a moral, o direito e as doutrinas políticas.
Para Marx, claramente, ideologia é um conceito pejorativo, um conceito crítico que implica ilusão, ou que se refere à consciência deformada da realidade através da ideologia dominante: as ideias das classes dominantes são as ideologias dominantes na sociedade. O que Marx faz é retomar a interpretação do conceito dado por Napoleão.
Mas o conceito de ideologia continua a sua trajectória no marxismo, mesmo depois de Marx, sobretudo na obra de Lenine, onde ganha um outro sentido, bastante diferente: a ideologia como qualquer concepção da realidade social ou política, vinculada aos interesses de certas classes sociais. Lenine dividia a ideologia em: ideologia burguesa e ideologia proletária. O termo passou a ser usado no movimento operário, na corrente leninista do movimento comunista, que fala em luta ideológica, no trabalho ideológico, etc.
Assim, a ideologia deixa de ter o sentido crítico, pejorativo, negativo, que tem em Marx, e passa a designar simplesmente qualquer doutrina sobre a realidade social que tenha vínculo com uma posição de classe. Assim a palavra vai mudando de sentido, não só quando passa de uma corrente para outra, mas também no seio de uma mesma corrente de ideias: o marxismo.
2 – Utopia e Ideologia
Já no século XX, surgiu uma tentativa de estabelecer uma ordenação de ideias face ao conceito. Essa tentativa foi realizada pelo famoso sociólogo Karl Manheim no seu livro Ideologia e Utopia, onde procurou distinguir os conceitos de ideologia e de utopia. Para ele, ideologia é o conjunto das concepções, ideias, representações e teorias que se orientam para a estabilização, legitimação, reprodução da ordem estabelecida.
São todas as doutrinas que têm um carácter conservador no sentido amplo da palavra, isto é, consciente ou inconsciente, voluntária ou involuntariamente, servem a manutenção da ordem estabelecida. Utopias pelo contrário são as ideias, representações e teorias que inspiram outra realidade, uma realidade ainda inexistente. Têm, portanto, uma dimensão crítica ou de negação da ordem social existente. Deste modo, as utopias têm uma função subversiva, uma função crítica e, em alguns casos, uma função revolucionária.
Podemos assim concluir que ideologia e utopia são duas formas de um mesmo fenómeno, que se manifesta de duas maneiras distintas. Esse fenómeno é a existência de um conjunto estrutural e orgânico de ideias, de representações, teorias e doutrinas, que são expressões de interesses sociais vinculados às posições sociais de grupos ou classes, podendo ser, segundo o caso, ideológicos ou utópicos.
Deste modo, o conceito de ideologia, na obra de Manheim, aparece com dois sentidos diferentes: o primeiro enquanto ideologia total: conjunto de todas as formas de pensar, estilos de pensamento, pontos de vista, que são vinculados aos interesses, às posições sociais de grupos ou classes; ideologia em seu sentido restrito – forma conservadora que essa ideologia total pode tomar, em oposição à forma crítica, a que ele chama utopia.
Em suma, qualquer que seja a definição do termo, a realidade é que estes conceitos se referem sempre a produtos sociais e só podem ser analisados dentro do seu contexto histórico e social, para serem percebidos, explicados, interpretados e definidos.
3 - Algumas ideologias que surgiram no último século
Entre o século XIX e o século XX muitas foram as ideologias que surgiram e se tornaram, mais ou menos populares. Todas têm um contexto histórico e social que é necessário compreender para perceber a razão do seu aparecimento. È uma tarefa difícil descrever com exactidão cada uma das ideologias, mas aqui fica um resumo de algumas das ideologias com mais destaque.
Anarquismo: trata-se de uma ideologia política que engloba métodos, acções e teorias que visam a eliminação total de todas as formas de governo obrigatório. Regra geral defendem a abolição de qualquer forma de ordem hierárquica que não seja livremente aceite. De salientar que a anarquia consiste na ausência de coacção e não na falta de ordem.
A tradição anarquista teve a sua origem entre os séculos XVIII e XIX. O primeiro pensador a intitular-se de anarquista e a defender claramente uma visão socialista libertária foi Joseph Proudhon.
Os anarquistas vêem qualquer governo como a manutenção do domínio de uma classe social sobre outra. Compartilham a crítica socialista ao sistema capitalista em que o Estado mantém a desigualdade social através da força, ao garantir a poucos a propriedade privada sobre os meios de produção, mas estendem a crítica aos socialistas que advogam a permanência de um Estado pós-revolucionário para garantia e organização da "nova sociedade".
Neste sistema, não haveria necessidade de autoridades ou governos uma vez que a administração da vida social só poderia ser exercida por aqueles que a compõem e a tornam efectiva, seja na agricultura, na indústria, no comércio, na educação ou noutras esferas da sociedade. A sociedade seria gerida por associações democráticas, formadas por todos, e agrupando-se livremente, ou seja, com entrada e saída livre, em cooperativas e estas em federações.
Fascismo: Esta ideologia foi implantada na Itália e na Alemanha, principalmente, nas décadas de 1930 e 1940, por oposição aos diversos liberalismos, socialismos e democracias. Possuía um carácter autoritário, expansionista e militarista. A palavra fascismo deriva de fascio, nome dos grupos políticos ou de militância que surgiram na Itália entre fins do século XIX e começo do século XX; mas também de fasces, que nos tempos do Império Romano era um símbolo dos magistrados: um machado cujo cabo era rodeado de varas, simbolizando o poder do Estado e a unidade do povo.
A palavra passou a ser sinónimo de qualquer sistema de governo que, de maneira semelhante ao de Benito Mussolini, exalta os homens e usa modernas técnicas de propaganda e censura, sustentando-se no nacionalismo e por vezes na xenofobia, privilegiando os nascidos no próprio país, apresentando uma certa apatia, indiferença ou discriminação para com os imigrantes.
O Fascismo italiano assumia que a natureza do Estado era superior à soma dos indivíduos que o compunham e que eles existiam para o Estado, em vez de o Estado existir para os servir. Tinha como principais características: o totalitarismo, a liderança carismática, o corporativismo, o nacionalismo, o militarismo e o expansionismo. No totalitarismo, as liberdades do indivíduo eram suprimidas e o povo era subordinado ao poder sem limites do Estado. Na liderança carismática, os fascistas demonstravam muita importância à personalidade. O corporativismo substituía os órgãos representativos como sindicatos, pelos corporativos, comandados por representantes dos empresários, dos trabalhadores e reuniam-se para dirigir e planear a economia.
O nacionalismo afirmava que a nação era a forma suprema de desenvolver as comunidades humanas. O militarismo tinha na guerra um tipo de selecção dos mais fortes e capazes e um instrumento de fortalecimento e regeneração dos povos. O expansionismo tinha como ideia principal a conquista territorial e o domínio de outros povos ditos inferiores.
O fascismo surgiu em tempo de crise, nas dificuldades económicas e sociais do primeiro pós-guerra, e na depressão dos anos 1930, quando as elites políticas se mostravam incapazes de integrar as massas através da fórmula democrática parlamentar ou quando existia um crescimento socialista ou comunista paralelo assustando as classes médias.
Comunismo: O comunismo é uma estrutura socioeconómica e uma ideologia política que promove o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes e apátrida baseada na propriedade comum e no controle dos meios de produção e da propriedade em geral, tendo sido implantado na Rússia e noutros países (principalmente do leste europeu), após a Revolução Russa (1917).
Esta ideologia pretendia obter uma sociedade sem classes onde as decisões sobre o que produzir e quais as políticas a seguir seriam tomadas democraticamente, permitindo que cada membro da sociedade pudesse participar do processo decisório, tanto na esfera política como económica. Como movimento político, os regimes comunistas foram governos historicamente autoritários e coercivos envolvidos principalmente na preservação do seu próprio poder, sem preocupações de fundo com o bem-estar do proletariado.
Democracia: surgiu em Atenas, na Grécia Antiga, e possui como ideal a participação dos cidadãos na vida política. È um regime de governo onde o poder de tomar decisões políticas cabe aos cidadãos, directa ou indirectamente, por meio de representantes eleitos — forma mais usual. Uma democracia pode existir num sistema presidencialista ou parlamentarista, republicano ou monárquico.
Capitalismo: surgiu na Europa durante o Renascimento Comercial e Urbano (século XV). Ligado ao desenvolvimento da burguesia, visa o lucro e a acumulação de riquezas. Caracteriza-se pela propriedade privada dos meios de produção e pela existência de mercados livres. Na historiografia ocidental, a ascensão do capitalismo é associada ao feudalismo, ocorrido na Europa no final da Idade Média. Outras condições associadas ao capitalismo são: a presença de agentes que investem em troca de um lucro futuro; o respeito a leis e contratos; a existência de financiamento, moeda e juro; a ocupação de trabalhadores segundo um mercado de trabalho. As sociedades modernas possuem, em geral, economias mistas, adoptando conceitos análogos aos capitalistas, com restrições.
Nacionalismo: é uma corrente ideológica conhecida pelo sentimento de valorização marcado pela aproximação e identificação com uma nação. Costuma diferenciar-se do patriotismo devido à sua definição mais estreita. O patriotismo é considerado mais uma manifestação de amor aos símbolos do Estado, como o Hino, a Bandeira, as suas instituições ou os seus representantes. Já o nacionalismo apresenta uma definição política mais abrangente. O nacionalismo visa a defesa dos interesses da nação antes de quaisquer outros e, sobretudo, da sua preservação enquanto entidade, nos campos linguístico, cultural, social, entre outros, contra processos de destruição identitária ou transformação.
Socialismo: Trata-se da ideologia que advoga a propriedade pública ou colectiva e a administração dos meios de produção e distribuição de bens de uma sociedade. Caracterizada pela igualdade de oportunidades para todos os indivíduos com um método mais igualitário de compensação. O socialismo moderno surgiu no final do século XVIII tendo tido origem na classe intelectual e nos movimentos políticos da classe trabalhadora que criticavam os efeitos da industrialização e da sociedade sobre a propriedade privada. Karl Marx afirmava que o socialismo seria alcançado através da luta de classes e de uma revolução do proletariado, tornando-se a fase de transição do capitalismo para o comunismo.
O socialismo acredita que o capitalismo concentra injustamente o poder e a riqueza numa pequena secção da sociedade que controla o capital e que esta riqueza é obtida através da exploração, criando uma sociedade desigual, que não oferece oportunidades iguais para todos a fim de maximizar as suas potencialidades. O socialismo defende ainda um certo grau de intervencionismo social e de racionalização económica.
Liberalismo: falamos de uma filosofia política que se caracteriza pela autonomia moral e económica da sociedade civil em oposição à concentração do poder político. Apesar de diversas culturas e épocas apresentarem indícios das ideias liberais, o liberalismo só ganhou expressão moderna com John Locke (1632-1704) e Adam Smith (1723-1790). Os seus principais conceitos abordam a questão do individualismo metodológico e jurídico, o pensamento, a liberdade religiosa, os direitos fundamentais, o direito, o governo limitador da ordem espontânea, a propriedade privada, e o mercado livre.
Populismo: O termo populismo é utilizado para designar um conjunto de movimentos políticos que sugeriram colocar no centro de a toda acção política, o povo enquanto massa em oposição aos mecanismos de representação próprios da democracia representativa. A sua principal característica é o contacto directo entre as massas urbanas e o líder carismático supostamente sem a intermediação de partidos ou corporações. O líder populista procura estabelecer um vínculo emocional com as massas, implicando isto a existência de um sistema de políticas ou métodos capazes de aliciar as classes sociais mais desfavorecidas, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio.
Fontes:
http://sociologiadeplantao.blogspot.com/2009/08/conceito-de-ideologia.html
http://www.suapesquisa.com/o_que_e/ideologia.htm
http://www.portalimpacto.com.br/docs/01AlexVazVestAula28.pdf
http://educacao.uol.com.br/sociologia/ult4264u44.jhtm
http://lupiglauco.vilabol.uol.com.br/socialismo.htm
http://sociologias-com.blogspot.com/2009/02/ideologia-e-populismo.html
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